sábado, 31 de dezembro de 2011

Tolentino Mendonça: "A fé é uma constante"

Entrevista de Tolentino Mendonça à "Notícias Magazine" de amanhã. Sai com o JN de amanhã e saiu com o DN de hoje, já que amanhã o DN não se publica.






O próximo

Na catequese, depois de ter escutado a parábola do bom samaritano, uma criança de oito anos respondeu assim à pergunta "Quem é o próximo?":
"O doutor da lei viu que Jesus, o samaritano e os outros estavam a espera da consulta e disse: Quem é o próximo?"

Anselmo Borges: O tempo, a crise e a transcendência

Texto de Anselmo Borges, no DN de hoje.


Vaclav Havel

Enigma maior é o do tempo. Não o tempo meteorológico, mas aquele tempo que nos faz envelhecer e desaparecer, morrer os nossos pais e amigos, aqueles a quem mais queremos, que tudo devora e anula. Naquele seu abismo devorador, tudo se despenha, e torna-se como se não tivesse sido.

Já Santo Agostinho se abismava perante o enigma: o que é o tempo? Eu sei. Mas, se alguém me perguntar e eu quiser responder, já não sei. Porque o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente nunca se capta. Ah, se soubéssemos o que é o tempo, teríamos talvez descoberto o mistério de ser e do ser.

Mas é decisivo perceber que já os gregos apresentaram dois grupos semânticos fundamentais referentes ao conceito do tempo: chrónos, o tempo quantitativo e linear, para significar o fluir inelutável do tempo, sem qualquer possibilidade de intervenção humana, e kairós, incidindo sobre o tempo qualitativo, enquanto crise e enquanto oportunidade, para referir aqueles momentos no tempo em que o homem é convocado a uma intervenção decisiva. Chrónos devora os seus próprios filhos, segundo o mito; kairós é a oportunidade oferecida aos homens para a viragem e a conversão, e tem também a ver com aquela experiência de pontos no tempo tangidos pela eternidade - pense-se na experiência da beleza, do amor, da música, da criação -, quando o tempo na sua voragem fica suspenso e mesmo anulado. A experiência da transcendência!

No termo de mais um ano, de forma mais intensa, é o enigma do tempo que outra vez nos visita, na sua dupla face: o tempo cronológico (devorador) e o tempo kairológico (criador).
Quantos neste ano deixaram de cá estar! Um fim de ano qualquer também já cá não estaremos.

Entre tantos que partiram - partiram para onde? (no domínio da ultimidade, a linguagem atraiçoa-nos sempre)-, fica aí, gigante na luta pela liberdade, no humanismo, na fundura e na altura do pensar político, Vaclav Havel.

É iniludível o seu pensar precisamente sobre o tempo, a crise e a transcendência, como, entre nós, chamou a atenção Jorge Almeida Fernandes.

O que provoca a crise maior do nosso tempo senão a vivência do tempo apenas como imediatidade de sucesso, produção e consumo, esquecendo a dimensão moral, metafísica e trágica da existência? Lá estava Havel a avisar em 2007: "O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. O pragmatismo dos políticos que querem ganhar futuras eleições, reconhecendo como autoridade suprema a vontade e os humores de uma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes".

Tenho aqui repetido que, numa sociedade sem transcendência nem eternidade, o tempo não faz texto, pois tudo se dissolve no aqui e agora, na pura imediatidade. E isso, claro, tem consequências até na economia. Vaclav Havel constatou: "Estamos a viver na primeira civilização global", acrescentando: "Mas também vivemos na primeira civilização ateia, isto é, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade." Consequências: uma civilização "obstinada em perseguir objectivos a curto prazo", "o que é importante é que um investimento seja rentável em 10 ou 15 anos" e não os efeitos dentro de 100 anos. Depois, "o orgulho", a hybris dos gregos. Por isso, suspeitava que a "nossa civilização caminha para a catástrofe", a não ser que cure "a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho".

Achava que "o desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia deve alarmar-nos". Considerava-se apenas meio crente, mas com "a certeza de que tudo no mundo não é apenas efeito do acaso" e convencido de que "há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina." Afinal, "a transcendência é a única alternativa à extinção".




Ler reflexão com as palavras de Havel e alguns pontos de semelhança com este texto aqui.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

30 de Dezembro de 1591. Morre Inocêncio IX


O Papa Inocêncio IX morreu no dia 30 de Dezembro de 1591, após quase dois meses de pontificado. Foi eleito no dia 3 de Novembro desse ano. Tinha 72 anos e estava doente. Passou os dois meses que lhe restaram na cama. Na realidade, a chefia da Igreja dependeu muito de Inocêncio IX, mas quando este era apenas o Card. Giovanni Facchinetti e estava sob as ordens do antecessor, também adoentado, Papa Gregório XIV.

"La marginación eclesiástica por razón de sexo resulta especialmente escandalosa"



Ramón María Nogués é padre e cientista. Publicou recentemente o livro “Dioses, creencias y neuronas”, sobre neuro-religião, a corrente na moda que pretendendo observar a manifestação da religião no cérebro humano tem concluído que Deus é uma questão cerebral (ou eu não tenho percebido bem ou, pela mesma ordem de ideias, estudando manifestação no cérebro da experiência de um jogo de futebol devemos concluir que o desporto é uma questão neural – o que não é questão neural, afinal?).

A entrevista que deu recentemente a José Manuel Vidal é a diversos títulos inteligente e acutilante. Pelo menos por quatro assuntos vale a pena lê-la: fé e ciência; sexualidade católica; a mulher e a Igreja; Vaticano II. Fiquemos com excertos relativos a estes dois últimos assuntos.
La Iglesia Católica tendrá que pedir perdón por la discriminación de la mujer en su seno?
Lo primero que tendría que hacer es modificar sus conductas misóginas. Jesús de Nazaret, representó en relación con su cultura, una actitud innovadora en el trato con la mujer y lo mismo la praxis de las comunidades paulinas. Después se reeditó en la Iglesia la misoginia ambiental generalizada. Ahora que la igualdad de géneros constituye una obvia situación social, la marginación eclesiástica  por razón de sexo resulta especialmente escandalosa, por lo que me parece que la Iglesia Católica tendrá que pedir perdón por su falta de equidad entre géneros, y espero que esta petición de perdón venga más pronto que tarde, y no tenga que esperar tres siglos como sucedió con los errores cometidos con Galileo.
(…) 
El péndulo de la involución eclesial ha llegado a su fin?
La Iglesia ha vivido y vive movimientos de todo tipo en mil lugares diversos. Estos movimientos se entrecruzan. La Iglesia ha vivido una involución por parte de los que equivocadamente han atribuido la crisis eclesial europea al Concilio Vaticano II, procediendo a su neutralización. Pero esta diagnóstico es equivocado ya que la crisis es debida a causas de mucho más calado que no se analizan, buscando justificaciones fáciles en el Concilio. Cuando vean que haber neutralizado el Concilio no soluciona la crisis, tendrán que afrontar las causas profundas de la crisis, y comprobarán el tiempo perdido y el mal diagnóstico realizado. Entonces aparecerán las razones que explican la crisis. Creo que más que tocar fondo o no, se trata de prever  el vaivén cultural en el que nos encontramos para poder surfear atinadamente sobre él anunciando la salvación sobre el movido oleaje del devenir humano.
Mas o melhor é ler tudo. Aqui.

Notas eclesiais: Alegria, compaixão e audácia para se revoltar

No "Sol" da semana passada (23 de Dezembro). Uma reflexão sobre a Igreja. Por António-Pedro Vasconcelos.


Apresentação pública de "Deus vem a Público"

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Rilke: Morrer é coisa desconhecida


(continuação)

Para nós, morrer é coisa desconhecida e difícil,
porque não se trata da nossa morte,
mas de algo que, enfim, nos exalta,
em vez daquela que precisou de amadurecer.
Por isso, brame um temporal para nos apagar a todos.

(acabou)

Rilke: Ainda ninguém soube morrer

(continuação)



Senhor, somos pais pobres que as pobres bestas
que, mesmo cegas, acabam a sua própria morte,
porque ainda ninguém soube morrer.
Faz com que aquela que domina a ciência
entrelace a vida em caramanchões
sob os quais Maio florirá mais cedo.



(continua)

Uma lição de Natal

O Evangelho sempre foi subversivo. Esta é uma das lições, ainda que o autor, Albert Montt, seja conhecido pelo seu anticlericalismo e mesmo anticristianismo.


Rilke: Os teus anjos passam como bandos de aves

(continuação)

É para ela que tudo o que os olhos vêem permanece
como eterno, embora há muito já devorado –
e todo aquele que forjou e construiu
torna-se mundo para este fruto;
e veio o gelo, a fusão,
os ventos que o agitaram e os raios que o devoraram.
Entrou nele todo o calor
dos corações e o ardor dos cérebros aquecidos ao rubro,
contudo, os teus anjos passam, como bandos de aves
que julgaram que todos os frutos estavam verdade.

(continua)

Ou temos missa ou vamos para tribunal


Notícia do "Correio da Manhã" de hoje. Reproduzo-a aqui por causa da ameaça judicial. O que acontecerá se os fiéis recorrerem ao tribunal? Suponho que não se trata do tribunal eclesiástico. Os tribunais declarar-se-ão incompetentes para deliberar sobre tal matéria. Mas seria curioso o tribunal encher-se de fiéis a pedir missa. E a Igreja a dizer que não a dava. E a decisão a prolongar-se anos e anos. E a Igreja - o padre, a Diocese de Coimbra - a usar as artimanhas em que o direito português é tão fértil para que a acção prescrevesse.

Rainer Maria Rilke: Senhor, dá a cada um a sua própria morte

(continuação)


Porque nós mesmos somos apenas a folha e a casca.
A grande morte que cada um traz dentro em sim
é o fruto e o centro de tudo.


É para ela que as jovens debutam
e parecem árvores a sair de uma lira,
e para ela os meus rapazes sonham ser homens
e, para os que crescem, as mulheres são confidentes
de angústias que mais ninguém poderia tirar-lhes.


(continua)

Catalina Pestana: Igreja e abusos sexuais

Artigo de Catalina Pestana no "Sol" da semana passada (23 de Dezembro).

Rilke: Oração da morte



Rainer Maria Rilke, que morreu na Suíça faz hoje 85 anos, escreveu uma oração a pedir "própria morte". Começa assim:


Ó Senhor, dá a cada um a sua própria morte,
uma morte nascida da sua própria vida,
que lhe deu amor, sentido e aflição.


(continua)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

José Diogo Quintela conta uma anedota de Natal. Um rabi, uma criança de sete anos e o presidente de uma comissão de utentes das Scut entram num bar...


Tudo corria bem... até que chegaram os teólogos

O Natal do Hemano Cortés (tirado daqui).


D. Manuel Clemente entrevistado pelo Jornal de Notícias

Entrevista que o JN fez ao Bispo do Porto (edição do dia de Natal). O início pode ser lido on-line, aqui. (Se salvar as imagens no seu computador, pode ler com mais definição).




Vitral de Bansky



Dizem que Bansky anda a apontar baterias à Igreja católica. O artista de Bristol, de identidade desconhecida, “fez” há dias o “Cardeal Pecado” (ou também "Pecado Cardinal").

O vitral acima faz parte de uma exposição actual do MOCA (Museum of Contemporary Art, Los Angeles) sobre arte da rua, aqui.

Acreditar no erro

Polanyi

Os cientistas têm por vezes de acreditar em coisas que sabem que mais tarde serão comprovadamente erradas.


Michael Polanyi (1891-1976) citado por Alistar McGrath

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Adriano Moreira e a educação para a paz de Bento XVI

Na sua coluna no DN de hoje, Adriano Moreira fala da mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, a qual se centra na educação dos jovens para a paz. Ler tudo aqui.
Na realidade o que a doutrina, de novo lembrada e sistematizada na mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, anima é que a guerra começa no coração dos homens, e por isso é no coração dos homens que é necessário radicar os valores da paz e da justiça, e isto, desde logo, em todo o processo educativo, formal ou informal. 
De novo, embora alguns responsáveis considerem superficial a exigência, todo o processo educativo, nestas sociedades da informação, do saber, e do saber fazer, não pode esquecer as humanidades, e daqui o apelo no sentido de "educar os povos para a justiça e a paz" responsabilizando as famílias, os Estados, os meios de comunicação, com especial apelo ao mundo dos media, porque "na sociedade actual os meios de comunicação de massa têm uma função particular: não só informam, mas também formam o espirito dos seus destinatários, e, conjuntamente, podem concorrer notavelmente para a educação dos jovens". E também para a deseducação quando o credo do mercado limita a genuína liberdade da informação. Um risco que o relativismo que invadiu os ocidentais torna muito evidente quando se avalia o tempo disponível por cada um dos responsáveis pelo processo educativo, a começar pela família, para exercer o dever que não pode deixar de ser-lhe atribuído.

Pai Natal já recruta para o próximo ano


"Vivemos na primeira civilização ateia", diz Vaclav Havel



“Vivemos na primeira civilização ateia, por outras palavras, numa civilização que perdeu a conexão com o infinito e a eternidade”, disse Vaclav Havel (1936-2011) na abertura da 14.ª Conferência do Forum 2000, em Praga, e repetiu uma série de vezes, como recordou Jorge Almeida Fernandes, num artigo do “Público” no sábado passado, a propósito da morte do estadista checo (18-12-2011).

Quando li estas palavras, pensei que se referia à realidade checa. O seu país é o que tem maior número de ateus na Europa – facto abundantemente recordado a quando da visita de Bento XVI à República Checa, em Setembro de 2009. Mas Havel pretendeu abarcar a realidade europeia e mesmo mundial. Disse em 2007 ao “Nouvel Observateur” (em relação a Vaclav Havel cito sempre o mesmo texto do “Público” de 24-12-2011) que a sua grande preocupação não era o terrorismo: “É a dinâmica suicidária da evolução da nossa civilização planetária”. Neste sentido geográfico, o checo concordaria com Marcel Gauchet, que afirmou em 2004 que o séc. XXI se anunciava como “o século da marginalização social e política do cristianismo”. Isso já acontece na Europa, a qual, diz o francês, “neste ponto, anuncia o futuro”.

Porquê “dinâmica suicidária”? Havel: “É como se estivesse obstinada em perseguir objectivos de curto prazo, quando a sorte do planeta exige um mais agudo e voluntário sentido de antecipação”. E ainda: “Pela primeira vez na História, assistimos ao desenvolvimento de uma civilização deliberadamente ateia. Deve alarmar-nos”. Noutro momento afirmou: “A transcendência é a única alternativa à extinção”. Esta frase não anda longe de outra de Remi Brague à revista católica “30 Giorni”: “O ateísmo não mata os homens, mas impede que eles nasçam”. Sociedade sem horizontes de futuro, principalmente meta-histórico, transcendência, não se reproduzem. Outra vez Havel: “O Ocidente democrático perdeu a capacidade de proteger e cultivar os valores que não cessa de reclamar como seus. (…) O pragmatismo dos políticos que querem ganhar eleições futuras, reconhecendo a vontade e os humores duma caprichosa sociedade de consumo, impede esses mesmos políticos de assumirem a dimensão moral, metafísica e trágica da sua própria linha de acção. (…) Uma nova divindade tende a suplantar o respeito pelo horizonte metafísico da vida humana: o ideal de uma produção e de um consumo incessantemente crescentes”.

Havel não se considerava crente – “sou apenas meio crente” –, mas estava convencido de que “há um ser, uma força velada por um manto de mistério”. “É o mistério que me fascina”.

Novamente Gauchet, que é agnóstico, para terminar, não sobre a sociedade, mas sobre a democracia numa sociedade pós-cristã: “O que ameaça a democracia, hoje, é o vazio, a futilidade, o esquecimento, a facilidade, o curto prazo, a superficialidade. As religiões e o cristianismo, em particular, têm o sentido do essencial, do trágico, do mistério da aventura humana, todas as coisas que a democracia facilmente ignora. Elas podem ser decisivas para a democracia”.

D. José Policarpo: "Não vale a pena lutar contra o Pai Natal"

Entrevista de Natal de D. José Policarpo no "Correio da Manhã" de 24 de Dezembro.



Nós e a Bíblia segundo Reagan

Ronald Reagan (1911-2004), citado há dias no "Público":


Não lemos a Bíblia como ela é; lemos a Bíblia como nós somos.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"A Virgem e o Coelho", fé e ciência num quadro de Natal


No blogue Rerum Natura, a explicação da pintura “A virgem e o Coelho”, de Ticiano, por António Piedade. Ou como cultura, genética e teologia se juntam num quadro renascentista, aqui.
(…) O quadro referencia a pureza da fertilidade e da concepção imaculada de Maria, representada pela alvura, símbolo de pureza, do coelho enquanto espécie associada à fertilidade. Nesta pintura renascentista, Maria recebe de Catarina de Alexandria o menino Jesus. Este contempla um coelho branco bem seguro pela mão esquerda de sua mãe imaculada. As mãos de Maria fazem a interligação entre o menino Jesus e a pureza representada pelo coelho branco. 
Como veremos mais à frente, há razões para uma intencionalidade para este simbolismo do coelho com a pureza e com a concepção sem pecado. Neste contexto, pode dizer-se que a obra faz uma alusão ao mistério da incarnação e da imaculada concepção de Maria, numa interpretação de Tiziano do culto mariano e dos novos evangelhos bíblicos. Mas note-se também na presença de um cesto semiaberto com fruta, uma maçã, numa alusão ao pecado original relatado nos Velhos testamentos. 
Esta obra “A Virgem e o Coelho” contém ainda informação insuspeita sobre da evolução da humanidade na sua relação com o mundo. Muito para além do renascimento e vitória da luz sobre as trevas, ajustado pela cristandade ao solstício de inverno, apropriada e primeiramente celebrada nas festividades natalícias neste canto ocidental da humanidade, para celebrar o nascimento do menino Jesus. (…) 
[Segundo o édito papal de Gregório I, séc. VI,] os coelhos recém-nascidos não eram considerados carnais pelo que poderiam ser consumidos durante a quaresma sem que daí adviesse pecado para aqueles que os consumissem! Eis uma forte razão para os manter em cativeiro, para os domesticar. Há registos da troca de coelhos no ano de 1194 entre mosteiros do centro da Europa e do Sul de França, o que mostra que a sua domesticação era comum já no primeiro milénio d.C. 
A natureza não carnal dos coelhos recém-nascidos, sugerindo uma concepção sem pecado, encontra assim eco na associação do coelho branco do quadro de Tiziano ligado à concepção imaculada do menino Jesus por Maria, nascimento celebrado nesta quadra natalícia pela cristandade.

Inveja

A nossa inveja dura sempre mais tempo que a felicidade daqueles que invejamos.


François de La Rochefoucauld (1613-1680)

João César das Neves: "O burro do Presépio"

Texto de João César das Neves no DN de hoje. Ler tudo aqui.


O Presépio podia existir sem vaca. Podia existir sem pastores, carneiros ou magos. Até podia existir sem S. José ou os Anjos. No Presépio existem apenas três personagens indispensáveis: Jesus, Maria e o burro. Jesus é o Deus que se faz homem, que muda o sentido do universo, que cria o Presépio. Maria é o caminho que Jesus escolheu para vir. O burro é o meio de lá chegarem. Sem Jesus o Presépio não havia. Sem Maria, Jesus não tinha nascido. Sem o burro, Maria não chegaria ao Presépio.

Entrevista do "i" ao líder do Opus Dei em Portugal

Por estes dias têm surgido na imprensa nacional diversas entrevistas a personalidades de relevo da Igreja em Portugal: D. José Policarpo no "Correio da Manhã", D. Manuel Clemente no "Jornal de Notícias", P.e José Rafael Espírito Santo no "i"... Não sei se mais, mas pelo menos estas. Com tempo hei-se cá pô-las todas, mas não de seguida - para não causar nenhuma overdose. Começo pela do vigário do Opus Dei em Portugal, no "i" do dia de Natal. Também pode ser lida aqui.





domingo, 25 de dezembro de 2011

50 anos da convocação do Vaticano II



Faz hoje 50 anos que João XXIII convocou o II Concílio do Vaticano.
Diante deste duplo espectáculo: um mundo que revela um grave estado de indigência espiritual e a Igreja de Cristo, tão vibrante de vitalidade, nós, desde quando subimos ao supremo pontificado, não obstante nossa indignidade e por um desígnio da Providência, sentimos logo o urgente dever de conclamar os nossos filhos para dar à Igreja a possibilidade de contribuir mais eficazmente na solução dos problemas da idade moderna. Por este motivo, acolhendo como vinda do alto uma voz íntima de nosso espírito, julgamos estar maduro o tempo para oferecermos à Igreja católica e ao mundo o dom de um novo concílio ecuménico, em acréscimo e continuação à série dos vinte grandes concílios, realizados ao longo dos séculos, como uma verdadeira providência celestial para incremento da graça na alma dos fiéis e para o progresso cristão.
Ler aqui. 


Nos dias que correm, de claro regresso a práticas tridentinas, absurdas, é quase subversivo falar de Vaticano II. Precisamos de ir além do Vaticano II, mas se ao menos lêssemos, ouvíssemos e praticássemos o Vaticano II...

Jesus, a biografia (im)possível

No "Público" de 23 de Dezembro. Texto de António Marujo. On-line aqui.


Hoje não há Bento Domingues no "Público", mas há na "Notícias Magazine"

"O que é feito do Natal?" A "Notícias Magazine" deste domingo (o JN é o único diário nacional nas bancas) lançou a pergunta a Maria Filomena Mónica, Eduardo Sá e Bento Domingues. Fica a resposta deste último.

Materialidade de Deus


O Papa disse ontem à noite, na Missa do Galo,  que “devemos depor as nossas falsas certezas, a nossa soberba intelectual, que nos impede de perceber a proximidade de Deus”, “o Deus que se esconde na humildade dum menino acabado de nascer”. E concluiu: “Celebremos assim a liturgia desta Noite santa, renunciando a fixarmo-nos no que é material, mensurável e palpável” (ler aqui).

Compreende-se o que o Papa quer dizer, até porque a sua homilia tinha começado com uma referência ao Natal enquanto “uma festa dos negócios”. Mas eu diria que celebrando o Natal a “proximidade de Deus”, devíamos precisamente realçar a materialidade, mensurabilidade e palpabilidade de Deus. Bem sei que estas palavras podem arrepiar quando aplicadas a Deus. Mas a Encarnação o que é senão Deus tornado “material, mensurável e palpável”?

sábado, 24 de dezembro de 2011

O maior gesto comunicativo de sempre



A minha meditação sobre as leituras de Natal ("Missa do Dia", lê-las aqui):


Deus comunica comunicando-se

1. Há um provérbio chinês que diz que quando um dedo aponta para a lua, o tolo olha para o dedo. Na lógica do provérbio, não devemos confundir os embrulhos, os copos, os meios com os conteúdos, as bebidas, as finalidades. Daí que a primeira frase que Isaías nos apresenta na primeira leitura Missa do Dia de Natal aparentemente não faça sentido. Os pés do mensageiro são os mesmos, nem mais nem menos belos, sempre com muito pó dos caminhos semidesérticos, quer traga uma boa, quer traga uma má nova. E no entanto, qual o/a amante que não teve vontade de beijar o carteiro, no tempo em que as cartas de amor não tinham a forma de sms e eram entregues pelo mensageiro, a pé ou de bicicleta? Como não recompensaria o pai misericordioso quem trouxesse notícias do filho pródigo?

Os pés do mensageiro são belos, mesmo que feridos pelas longas caminhadas, porque a mensagem é ainda mais bela e tudo contagia pelo facto de ser proclamada. E o mais importante da notícia é: “O teu Deus é rei”, diz o mensageiro. A mensagem foi proclamada entre o povo cativo na Babilónia e significaria isto: “Deus é quem manda, vence os ídolos e vai repor a ordem nos poderes do mundo (através de Ciro). Acabou o tempo de «o teu rei é deus». Em breve o povo regressará a Jerusalém, à sua pátria, ao seu lar”. Para o exilado não há palavra mais bonita do que “pátria”. E era a isso que “Deus” soava para os judeus no cativeiro.

2. Não é preciso ser muito pessimista para conceber que a humanidade está num cativeiro. Basta ler ou ver as notícias de todos os dias. Está num cativeiro em que é cativa de si própria, dos seus erros e ilusões, da sua cegueira, da sua vontade incontrolada, da sua liberdade mal usada, das suas assimetrias de rendimentos, dos seus abusos de poder. A crise actual, localizada no Ocidente, é apenas mais um episódio da série dolorosa. O diagnóstico é reservado. Há cura? Haverá libertação? Uns dirão que é uma questão de tempo, que a humanidade ainda não atingiu o estado adulto. Outros dirão que se trata do desequilíbrio próprio de quem caminha, que a humanidade tem em si mesma a salvação que há-de desabrochar. A Bíblia diz algo diferente. Diz que a salvação bem de fora, ainda que não nos seja estranha. “Nestes dias, que são os últimos, [Deus] falou-nos por ser Filho”, diz Heb 1,2. Cansado de mandar mensageiros continuamente ignorados, enviou o seu Filho, que é também a sua Palavra, o Logos, o Verbo, que é Deus com Ele. Comunicou comunicando-se. Diz o Evangelho que “o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1), para depois dar o salto do maior gesto comunicativo de sempre, ainda maior do que a poderosa palavra genesíaca dos primeiros dias da Criação (porque, como diz Hebreus, também foi pelo Filho que o universo foi criado), que dividiu a história em duas parte e continua a ser pedra de toque para muitas vidas: “O Verbo fez-se carne e habitou entre nós”.


A humanidade que não se iluda. Se não se abrir à Palavra que vem do alto mas não é exterior a ela, porque se fez carne, parecerá sempre como o tolo do Barão de Munchausen, que estando a afundar-se num pântano, salvou-se puxando-se a si mesmo pelos cabelos. Tolo e mentiroso.

3. Ouvir no dia de Natal o prólogo do Evangelho de S. João, para quem não foi à Missa do Galo ou à da Aurora, é capaz de gerar uma ligeira sensação de vazio. Onde está o relato do Natal? O Menino? Os anjos? Os pastores? Mas este é um dos textos mais belos do Novo Testamento, um hino, uma meditação escrita quando os cristãos já tinham dado um salto dos factos incertos (que Jesus nasceu, sem dúvida que nasceu; mas onde?) para os símbolos (a cidade de David é Belém, que quer dizer “casa do Pão”; se Jesus é o messias e pão da vida, só pode ter nascido em Belém) e dos símbolos para o sentido mais profundo da fé (na Páscoa da morte e ressurreição, Jesus revela-se como o Messias que sempre foi desde o nascimento e ainda antes do nascimento, porque quem é Deus é sempre Deus).

O Evangelho de João olha para Jesus de outra maneira. Se os três sinópticos como que são uma subida para chegar à conclusão de que Jesus é o Cristo-Deus, com João o percurso é inverso: o Verbo, que desde sempre esteve com Deus, desce à humanidade. É comunicação de Deus.

Este é o Evangelho para quem já percebeu que em Jesus o mensageiro e a mensagem coincidem porque é o Verbo de Deus. Quando o dedo aponta, não somos tolos se olharmos para o dedo e dermos com o dedo de Jesus. Ele é a última e definitiva mensagem. Não é o dedo que aponta, mas a mão estendida do encontro de Deus com a humanidade.

4. Por Ele marcharam os passos dos legionários,
As velas dos barcos por Ele se tinham estendido
Por ele os grandes barcos de Outono tinham luzido,
Por ele se dobraram as velas nos estuários.
(…)
Os passos de Dário tinham marchado por Ele,
Era por Ele que esperavam no fundo da Pérsia,
Era por Ele que esperavam numa alma dispersa,
Ele é o Senhor de ontem e de hoje.
E os passos de Alexandre por Ele tinham marchado
Do palácio paternal às margens do Eufrates.
E por Ele o último sol tinha luzido
Sobre a morte de Aristóteles e a morte de Sócrates.
(…)
As regras de Aristóteles tinham marchado por Ele
Do cavalo de Alexandre às épocas escolásticas.
E o ascetismo e a regra luziram por Ele
Das regras de Epicuro até às regras monásticas.

(Excerto de um poema de Charles Péguy)

Terapia de grupo de Natal


Anselmo Borges: Jesus não era cristão?


Infelizmente, entre nós, o saber sobre a religião e as religiões é primário. A razão está em que o estudo do fenómeno religioso tem estado ausente da Universidade. Depois, há alguma má vontade, por vezes justificada, contra a Igreja, e esta não se tem esforçado suficientemente para esclarecer os cristãos e as pessoas em geral.


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).

Uma "notícia", proclamada alto e bom som na televisão e nos media em geral: "Jesus não era cristão." O seu arauto: José Rodrigues dos Santos.

Afinal, em que ficamos: Jesus era cristão ou não? Se por cristão entendermos um discípulo de Jesus Cristo, então Jesus não era cristão, pois ele não foi discípulo de si mesmo. Se entendermos por cristão aquele movimento histórico que chegou até nós com esse nome e que tem na sua base a fé em Jesus, o Cristo, então Jesus era cristão, na medida em que a sua pessoa e o que ele anunciou e fez constituem o fundamento do cristianismo. Foi em Antioquia, que, pelo ano 48, pela primeira vez, os discípulos receberam o nome de cristãos, como pode ler-se nos Actos dos Apóstolos.

Infelizmente, entre nós, o saber sobre a religião e as religiões é primário. A razão está em que o estudo do fenómeno religioso tem estado ausente da Universidade. Depois, há alguma má vontade, por vezes justificada, contra a Igreja, e esta não se tem esforçado suficientemente para esclarecer os cristãos e as pessoas em geral.

Deste modo se explica, como disse o reputado exegeta Padre Carreira das Neves, que investigou em Jerusalém e em Roma, em bibliotecas com centenas de milhares de volumes dedicados ao tema, tendo ele próprio uma pequena biblioteca de três mil volumes, que chegue José Rodrigues dos Santos e qual Pitonisa de Delfos pense arrumar a questão com dezoito volumes. Não é bom não se cumprir o velho preceito: que o sapateiro não vá além da sandália.

Tenho repetido que, sendo Jesus a figura mais estudada da história por especialistas eminentes, que dedicaram e dedicam a sua vida ao tema, se José Rodrigues dos Santos julga ter encontrado a verdadeira identidade de Jesus Cristo, deveria escrever um artigo científico ou uma tese e deixar-se confrontar então com os seus pares, e o seu nome ficaria inapagável na lista da investigação. O que não pode é jogar ao mesmo tempo nos dois tabuleiros: o ficcional e o histórico-teológico, pois isso é desonesto intelectualmente, já que o leitor não tem maneira de destrinçar entre os dois planos. Quando é que é história? Quando é que é ficção?

O Novo Testamento contém muitas "fraudes", pois não existem originais, diz ele. Que diríamos então das obras da Antiguidade Clássica, da Ilíada, da Odisseia, das obras de Platão? Em relação ao Novo Testamento, há uns 115 papiros com quase todo o seu texto, dos séculos II e III, e um fragmento do capítulo 18 do Evangelho de João foi escrito pelo ano 125 e é praticamente idêntico ao que editamos hoje a partir de manuscritos posteriores. O cânone, no essencial, estava estabelecido pelo ano 200.

Por mim, apresentei o livro, no contexto do que deve ser uma apresentação: um diálogo crítico com a obra e o autor. Os jornais referiram a minha crítica e discordância. A RTP, essa, limitou-se a dizer - intencionalmente? - que eu o tinha apresentado. Como a minha crítica não foi sequer mencionada - José Rodrigues dos Santos, pelo contrário, teve espaço amplo de divulgação do seu livro, até no telejornal, o que levou ao protesto de muitos, perguntando se não se está a ferir a norma da imparcialidade de uma televisão que deve ser serviço público -, muita gente pensou que eu tinha ido a Lisboa abençoá-lo. Afinal, não é sem razão que há quem se queixe do abuso do poder dos jornalistas, concretamente na televisão.

De qualquer forma, esta polémica revela que Jesus continua a ser uma figura apelativa, que exerce fascínio. Mesmo "O Último Segredo" quer clonar Jesus, porque seria factor de paz para o mundo.

Quer se queira quer não, o Natal existe por causa de Jesus Cristo. Ele é uma figura determinante da História, que, sem ele, seria diferente. Como escreveu o filósofo ateu Ernst Bloch, foi por ele que veio ao mundo a afirmação de que todos os seres humanos têm dignidade inviolável. Aliás, a própria ideia de pessoa e dos seus direitos tem na base a discussão à volta da sua pessoa. Jesus está na origem da religião maioritária no mundo. Numa população mundial, calculada em 6900 milhões, há 2180 milhões de cristãos: uma em cada três pessoas no mundo é cristã.

Natal, poema de Bocage


Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.

Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.

Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.

Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.

Bocage (1765-1805)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Maria, Deus e e o poder


Maria tem sido um ícone de Deus. Para inúmeros fiéis, ela tem funcionado no sentido de revelar o amor divino como misericordioso, próximo, interessado, sempre pronto a ouvir e a responder às necessidades humanas, confiável e profundamente atractivo, e tem feito isso num grau impossível quando se pensa em Deus simplesmente como um homem ou homens de poder. Consequentemente, em devoção a ela como uma mãe compassiva que não vai deixar que um dos seus filhos se perca, o que realmente está sendo mediado é uma experiência mais atraente de Deus?

Elizabeth Johnson, CSJ

O que a Bíblia não conta sobre Jesus nem a revista "Sábado": A vida misteriosa entre os 12 e os 30 anos

Na "Sábado" de ontem. Só pela entrada, o artigo seria de fugir a sete pés. Diz que Jesus estudou os evangelhos e que foi pedreiro. Queria dizer que Jesus estudou os textos sagrados e que foi carpinteiro ou artífice, já que a palavra "tekton" dá para várias actividades. Mas depois a peça lá se compõe, ainda que ignore que mesmo o episódio de Jesus aos 12 anos no templo, como os episódios do Natal, não tenha carácter histórico. Quando à hipótese de Jesus ter andado pela Índia, é mirabolante e não tem qualquer seriedade académica, mas de vez quando regressa à imprensa, geralmente no Natal ou na Páscoa.








Semana dos Seminários

Parece que se dizem agnósticos (ou o mais conhecido deles). Mas a simbologia católica (sim, mais católica do que simplesmente protestante ou...