sábado, 31 de outubro de 2009

Lutero não aguenta mais

A Declaração Conjunta foi assinada no dia 31 de Outubro de 1999 porque nesse mesmo dia, mas 482 anos antes, em 1517, Lutero afixava na porta da igreja do Castelo de Wittenberg as 95 teses contra as indulgências.

27. Pregam doutrina mundana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus”.

Podem ler lidas aqui.

Na imagem, uma das indulgências vendidas pelo dominicano alemão Johannes Tietzel. Diz isto: "Pela autoridade de todos os santos e numa atitude de misericórdia para convosco, absolvo-vos de todos os pecados e más acções e redimo de qualquer castigo durante dez dias".

31 de Outubro de 1999. Luteranos e Católicos assinam a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação

No dia 31 de Outubro de 1999, o bispo luterano Christian Krause, pela Federação Luterana Mundial, e o cardeal Edward I. Cassidy, pela Santa Sé, assinaram a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação.

O documento, um passo fundamental no diálogo ecuménico entre luteranos e católicos, vem dizer que ambos professam a mesa fé na doutrina da salvação (é isso que quer dizer “justificação”), embora com nuances diferentes. Unidos no fundamental.

O documento afirma sete vezes “confessamos juntos”.

Este primeiro “confessamos juntos” põe em concordância o essencial do luteranismo (sola gratia, sola fides) sem deixar que os católicos percam a face (a defesa das obras):

"Confessamos juntos: somente pela graça, na fé na obra salvífica de Cristo, e não por causa dos nossos méritos, somos aceites por Deus e recebemos o Espírito Santo, que nos renova os corações e nos capacita e chama para as boas obras".

Apesar de, no essencial, o documento representar a aceitação da doutrina da justificação luterana por parte dos católicos (no fundo, é dizer: “Lutero é católico”; ou “somos todos luteranos, como santo Agostinho, por exemplo”), houve luteranos que não aceitaram a declaração. Alguns defenderam que a Igreja Católica devia, na sequência da declaração, retractar-se em relação ao Concílio de Trento.

A declaração conjunta pode ser lida aqui.

Inspirações 5 - Lula, Jesus Cristo, Judas e fariseus

Numa entrevista em que diz que já não usa a palavra burguesia (“Não utilizo mais a palavra burguesia. (…) Tem sectores diferenciados. Não pode colocar todo mundo no mesmo barco”), Lula da Silva nota que ninguém consegue formar governo fora da realidade política. “Entre o que se quer e o que se pode fazer, tem uma diferença do tamanho do oceano Atlântico”. E depois remata: “Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”.


A entrevista pode ser lida na Folha de S. Paulo.

Igualmente curioso - e bíblica, social e politicamente pertinente - foi o comentário que se seguiu de D. Dimas Lara Barbosa, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB): "Judas era um discípulo de Jesus. Mas Jesus não fez aliança com fariseus e saduceus" (aqui).


As notas desta discussão de semântica bíblica, que é mais um caso de linguagem política de inspiração religiosa, chegaram-me através do missionário português no Nordeste brasileiro Pedro José, a quem muito agradeço (tem blogue aqui).

Anselmo Borges: "Seria injusto não haver Deus"

Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Deus não é "objecto" de ciência, mas uma esperança, sobretudo quando se pensa nas vítimas inocentes. Como escreveu o agnóstico M. Horkheimer, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt, "se tivesse de descrever a razão por que Kant se manteve na fé em Deus, não saberia encontrar melhor referência do que aquele passo de Victor Hugo: uma anciã caminha pela rua. Ela cuidou dos filhos e colheu ingratidão; trabalhou e vive na miséria; amou e vive na solidão. E no entanto está longe de qualquer ódio e rancor, e ajuda onde pode... Alguém vê-a caminhar e diz: Ça doit avoir un lendemain!... Porque não foram capazes de pensar que a injustiça que atravessa a História seja definitiva, Voltaire e Kant postularam Deus - não para eles mesmos".

O texto chama-se "Seria injusto não haver Deus". Parece que há uma espécie de necessidade lógico-moral. Mas na Bíblia não é assim. Ou é mais do que isso. Deus, de certo modo, intromete-se. Na revelação judaico-cristã, Deus vem ao encontro do ser humano. Comunica-se. Mete-se com Adão e Eva, com Caim, com Abraão, com Moisés, com os profetas, com os pensadores sapienciais. Deus toma a iniciativa.


Leão e Águia trocados

No livro de Durrow, os evangelistas são representados por quatro animais, como é tradição. Porém, o Leão é atribuído a João (e não a Marcos) e a Águia a Marcos (e não a João). Mateus e Lucas são representados por um homem e um touro, respectivamente.

Livro de Durrow

O Livro de Durrow (que provavelmente foi feito na abadia de Durrow, no Condado de Offaly, na Irlanda, mas há outras hipóteses) é o mais antigo Evangelho ilustrado que sobreviveu na totalidade. Representa um novo conceito medieval de embelezamento do texto sagrado. É o primeiro exemplo de um programa total de decoração que complementa a estrutura do texto.

A instituição que o detém, Trinity College de Dublin, diz que é da segunda metade do séc. VII (e não do séc. IX, como diz a Ecclesia). O Livro de Durrow, de pergaminho, mede 245 x 145 mm.

Tesouro cultural da Irlanda chega a Coimbra

Uma cópia do livro de Durrow, o mais antigo Evangelho com decorações completas feito na Irlanda, foi ontem entregue à Universidade de Coimbra.

Datado do século IX, é um dos mais famosos manuscritos com iluminuras irlandesas e muito provavelmente o primeiro Evangelho produzido nas ilhas britânicas, no período pós-Império Romano.

O director da biblioteca da Universidade de Coimbra, Carlos Fiolhais, espera que esta obra seja muito requisitada: “Uma obra do século IX com iluminuras ao estilo inglês da época, feita por monges, numa altura em que os livros eram coisas misteriosas, feitas no segredo dos conventos, interessa a toda a gente, no sentido de que qualquer pessoa é curiosa pela história, saber como os livros eram feitos na alta idade média, que arte tinham. É algo que tem interesse para toda a gente, saber como a tradição cristã passou nessa altura através do livro, o papel que o livro teve na história da religião, em particular o cristianismo.”

Considerado um dos mais importantes testemunhos da sua época, o original deste livro encontra-se no espólio da biblioteca da Trinity College, em Dublin.

Fonte do texto: Ecclesia

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

30 de Outubro de 1501. Banquete das Castanhas

Na noite de 30 de Outubro de 1501, acontece no Palácio Apostólico, promovido por Cesare Bórgia (na imagem), filho ilegítimo do Papa Alexandre VI, o Banquete ou Ballet das Castanhas. O próprio Papa assistiu ao espectáculo. Cinquenta prostitutas dançaram com os convidados, altos dignatários da Igreja, primeiro vestidas, depois nuas. A seguir espalharam-se castanhas pelo chão e, de gatas, as prostitutas apanharam-nas. Seguiu-se uma orgia.

O episódio contribuiu para a fama dos Bórgia e ainda mais para evidenciar a necessidade de reforma do papado e da Igreja.

Não retiraste de mim o teu olhar

Ó Deus, jamais homem algum conseguiu ver-te.
Tu és único, pois superas toda a misericórdia.
Graças te dou de todo o coração,
Porque não retiraste de mim o teu olhar
Quando me ia afundando nas trevas.
Tu seguraste-me com a tua mão divina.

Simeão, o Novo Teólogo (teólogo bizantino, 949-1022)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

29 de Outubro de 1787. Estreia de “Don Giovanni”

No dia 29 de Outubro de 1787, em Praga, estreia a ópera “Il dissoluto punito, ossia il Don Giovanni”, mais conhecida por “Don Giovanni”, de Mozart.

Nesta ópera séria e cómica, Don Giovanni, um nobre depravado que seduz mulheres prometendo-lhes casamento e que depois as abandona, tem uma lição à altura: “A morte dos pérfidos é sempre igual à sua vida”. Guião de Lorenzo da Ponte.

Rui Tavares é marcionita

Deixei de referir os que se pronunciaram sobre Saramago / Deus / a Bíblia / “Caim” et alia, mas retomo o tema por causa de Rui Tavares no Público de hoje. Não sei se o cronista vai colocar o texto que saiu na edição impressa no seu sítio/blog. Suponho que sim.

Quando, antevendo que um dia se pronunciaria sobre o assunto, julgava eu que ele retomaria uma ideia muito acertada, a de que a partir dos 40 anos somos culpados da nossa própria ignorância (nos assuntos sobre os quais escolhemos falar), afirma, afinal:

“Quanto ao resto; um deus vingativo, rancoroso, capaz de fúrias indiscriminadas contra culpados e inocentes; um deus que testa os humanos como se fosse brinquedos; um deus que às vezes parece que «não gosta de nós» - bem, que escândalo pode haver? Qualquer pessoa que goste de ler o Antigo Testamento sabe disto. Deus diz: exterminem os amorreus, e os amorreus são exterminados. A mulher adúltera e o filho desobediente são apedrejados; o pai deve sacrificar o filho; o homem com apenas um testículo é proibido de entrar no templo, e por aí adiante.

A relação entre humanos e o deus do Antigo Testamento – como diz Saramago «nem ele nos entende, nem nós o entendemos a ele» - é como uma história amorosa que poderia ter dado muito certo mas deu muito errado”.

Também Rui Tavares não percebeu nada. Estuda-se Feuerbach, Marx, Freud, para quê? Põem-se as coisas em termos de Deus, para quê? Por que é que ninguém põe a questão em termos do entendimento humano sobre Deus? Eu tenho uma explicação. Porque sendo Deus o sujeito, atinge-se mais facilmente a Igreja do que pondo o entendimento humano de Deus no centro da questão. Saramago sabe disso. Rui Tavares também. De resto, o pontífice e o acólito ignoram que a questão da maldade do Antigo Testamento foi discutida há cerca de 1850 anos. O nome Marcião diz alguma coisa?

Basta pôr o nome no Google e aparece logo o essencial do pensamento sobre Marcião (séc. II). Até a Wikipédia o diz:

“Marcião considerava que o Deus vingativo do Antigo Testamento não poderia ser o mesmo Deus amoroso a que Jesus se referia como Pai, e por isso, achava que só o Novo Testamento interessaria aos cristãos. Mas Marcião também não aceitava os quatro evangelhos canónicos, pois os considerava corruptos, cheios de falsificações. Na doutrina de Marcião havia assim um Deus bom e um Deus mau”.

Os cristãos dos primeiros séculos perceberam que o Deus do AT é o mesmo que do o NT. Não podia ser diferente. Os factos e as ideias estão de tal maneira misturados que ou se aceita tudo ou se recusa tudo. Os cristãos e os judeus aceitaram tudo, reinterpretando. O entendimento é que devia ser diferente. 1850 anos depois, o entendimento de alguns avançou pouco. Ainda há muitos marcionitas. Com uma diferença. Para os novos marcionitas, só há o Deus mau. E nesse, claro, não podem crer.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Os binóculos de João XXIII

Copio da página 26 de “Razões para o Amor” (editorial Missões, Cucujães), de Martín Desclazo:

«O pastor anglicano Douglas Walstall visitou, certa ocasião, o Papa João XXIII e esperava ter com ele uma profunda conversa ecuménica. Mas logo percebeu que o Pontífice queria era simplesmente “conversar”. De facto, logo nos primeiros minutos, este lhe confidenciou que ali, no Vaticano, “se aborrecia um pouco”, sobretudo da parte da tarde. As manhãs eram cheias com as audiências. Mas muitas tardes não sabia bem o que fazer. “Lá em Veneza – confessava o Papa – sempre tinha bastantes coisas pendentes; ou então ia dar um passeio. Aqui, a maioria dos assuntos os cardeais já mos trazem resolvidos, e basta eu assinar. Quanto a passear, quase não me deixam. Ou então tenho de sair com grande cortejo que põe em grande rebuliço toda a cidade. Sabe então que faço? Pego nestes binóculos – apontou para os que tinha na mesa – e ponho-me à janela a ver, uma por uma, as cúpulas das igrejas de Roma. Penso que à volta de cada igreja há gente que é feliz e gente que sofre; ancião solitários e pares de jovens alegres. Também gente amargurada ou esmagada. Então ponho-me a pensar neles e peço a Deus que abençoe a sua felicidade e console as suas dores”».

"Hoje, apenas hoje", um texto de João XXIII

Procurarei viver pensando apenas no dia de hoje, sem querer resolver de uma só vez todos os problemas da minha vida.

Hoje, apenas hoje, terei o máximo cuidado na minha convivência: afável nas minhas maneiras, a ninguém criticarei, nem pretenderei melhorar, nem corrigir ninguém à força se não a mim mesmo.

Hoje, apenas hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para a felicidade, não só no outro mundo mas também já neste.

Hoje, apenas hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias sem pretender que sejam todas as circunstâncias a adaptarem-se aos meus desejos.

Hoje, apenas hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura. Assim como o alimento é necessário para a vida do corpo, assim a boa leitura é necessária para a vida do espírito.

Hoje, apenas hoje, farei ao menos uma coisa que me custa fazer; e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, procurarei que ninguém o saiba.

Hoje, apenas hoje, farei uma boa acção, e não o direi a ninguém.

Hoje, apenas hoje, executarei um programa pormenorizado. Talvez não o cumpra perfeitamente, mas ao menos escrevê-lo-ei. E fugirei de dois males: a pressa e a indecisão.

Hoje, apenas hoje, acreditarei firmemente - embora as circunstâncias mostrem o contrário - que Deus se ocupa de mim como se não existisse mais ninguém no mundo.

Hoje, apenas hoje, não terei qualquer medo. De modo especial não terei medo de apreciar o que é belo e de crer na bondade.

João XXIII, Papa

28 de Outubro de 1958. Eleição de João XXIII


Papa João XXIII (nome de baptismo: Angelo Giuseppe Roncalli), nasceu em Sotto Il Monte, no dia 25 de Novembro de 1881 e morreu no Vaticano, no dia 3 de Junho de 1963. Foi eleito Papa no dia 28 de Outubro de 1958.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Os demónios também dançam. E muito

Anti-semitismo
Anti-islamismo
Antifeminismo
Anti-americanismo
Anticlericalismo
Antijesuitismo
Antiprotestantismo
Antiliberalismo
Antimaçonismo
Anticomunismo

São estes os demónios que dançam na sociedade portuguesa, segundo o livro coordenado por António Marujo e José Eduardo Franco.

Trata-se de um estudo inédito sobre o fenómeno da intolerância na cultura portuguesa.

Conta com a colaboração de Esther Mucznick (investigadora em assuntos judaicos), Faranaz Keshavjee (investigadora em temas islâmicos), Luís Machado de Abreu (historiador, professor universitário), João Francisco Marques (historiador), José Eduardo Franco (historiador), Rui Ramos (historiador), Ana Vicente (investigadora em temas feministas), Ernesto Castro Leal (historiador), Miguel Real (escritor) e Viriato Soromenho-Marques (professor de Filosofia e investigador).

Edição Temas & Debates / Círculo de Leitores

“A intolerância traduzida em violência psicológica, e não poucas vezes física, gerada por estas correntes anti, é uma realidade de dimensão significativa que povoa o nosso passado colectivo. O seu conhecimento crítico pode ser, com efeito, uma contribuição para o entendimento de motivações, estratégias e modos de intervenção. Portanto, não como mera erudição, mas antes como forma de profilaxia, em nome da consolidação de uma sociedade que se deseja imbuída de cultura democrática e tolerante.

Trabalhamos, pois, com a convicção de que “compreender já é princípio de cura”, esperando que o entendimento das raízes da intolerância nos possa ajudar a purificar a memória. Desse modo tornar-nos-emos mais humanos e construtores de uma sociedade onde haja lugar para todos, salvaguardando a dignidade da diferença”.

Excerto das páginas introdutórias. Mais aqui.

Usos de "In Hoc Signo Vinces"


Antiga imagem de marca da Guimarães Editores.

Moedas de D. João V. Ano de 1721. 400 reis.

27 de Outubro de 312. Constantino lê numa visão “In Hoc Signo Vinces”


Na tarde de 27 de Outubro de 312, quando se preparava para um combate contra Maxêncio, que também queria ser imperador de Roma, o pagão Constantino teve uma visão. As letras gregas XP (Qhi e Ró) aparecem entrelaçadas com uma cruz, juntamente com a frase “In Hoc Signo Vinces” (“Sob este sinal vencerás”). No dia seguinte, perto da Ponte Mílvia (sobre o Tibre, em Roma), derrota Maxêncio.
Constantino entra em Roma a seguir, onde é aclamado como o único Augusto.
O Senado atribui a vitória a “uma divindade”. Pouco depois, Constantino ordena o fim de todas as perseguições aos cristãos (na Britânia, na Gália e na Hispânia, onde Constanino já antes era reconhecido como “pequeno César”, desde 306 que havia liberdade religiosa).
Ainda que historiadores apontem outro contexto para a visão (Lactâncio diz que foi durante um sonho; Eusébio de Cesareia conta que a visão contra o Sol aconteceu em determinado dia e a explicação do significado, por Cristo, na noite seguinte, durante um sonho), esta foi, provavelmente, a visão que mais influenciou o decurso da história.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Isto não é sinal de fracasso

Em vez de estares desgostoso contigo mesmo,
Aceita o teu fracasso e apresenta-o a Deus:
“Bem, apesar de tudo o que te digo,
Aceita a minha miséria,
Ajuda-me na minha debilidade”.
Isto não é sinal de fracasso,
É a verdadeira humildade.

Evelyn Underhill (1875-1941)

Poesia, contos e religões: Islamismo - Mundo árabe

Paulo Mendes Pinto selecciona textos muçulmanos. Ana Ribeiro, David Pereira Bastos, Mónica Calle e Mónica Garnet lêem-nos. Dia 27 de Outubro, amanhã, às 19h, no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. (Obrigado pela informação, Fernando Correia de Oliveira, da estacaochronographica.blogspot.com)

Uma pedra por cima


Epitáfio no túmulo de Nikos Kazantzakis em Heraklion (Ilha de Creta):

Δεν ελπίζω τίποτα.
Δε φοβάμαι τίποτα.
Είμαι λεύτερος.

Não espero nada.
Não temo nada.
Sou livre.

26 de Outubro de 1957. Morre o romancista Nikos Kazantzakis

Nikos Kazantzakis nasceu no Império Otomano (em Creta, no dia 18 de Fevereiro de 1883) e morreu na Alemanha (de leucemia, em Freiburg im Breisgau, no dia 26 de Outubro de 1957). Mas é caracteristicamente grego, como “Zorba, o Grego”, a sua maior obra. Deu origem a um grande filme, com Anthony Quinn.

Influenciado por Nietzsche, Kazantzakis viveu dilacerado por questões religiosas, hesitando entre a fé e a negação. Livros como “Cristo Crucificado” (em port. na Ulisseia) (“O Χριστός Ξανασταυρώνεται”), “A última tentação de Cristo” (em port. no Círculo de Leitores) (“Ο Τελευταίος Πειρασμός”) e “O pobre de Deus” (“Ο Φτωχούλης του Θεού”, sobre São Francisco) são essencialmente espaço de dúvida.

“A última tentação de Cristo”, original de 1951, deu origem ao filme homónimo de Scorsese, em 1988.

domingo, 25 de outubro de 2009

A quem segredaria eu a minha inquietação?

Que será de mim sem ti?
Atormentado por medos e angústias,
sentir-me-ia só no mundo imenso.
Não saberia o que deveria amar.
O futuro seria um abismo sombrio
e, quando o meu coração se enchesse de pena,
A quem segredaria eu a minha inquietação?

Friedrich Novalis (1772-1801)

Bento Domingues e o confronto na afabilidade

O texto de Bento Domingues no Público de hoje. Vale a pena ler (clicar para aumentar), como sempre. Mas julgo que se equivoca quando diz: “Na troca de insultos, na resposta ao ódio com o ódio, ao mal com o mal. Não se salta de fora da lei de talião (…) Na boca de Jesus, nasceu outra “lei”; “amai os vossos inimigos”. Era desnecessário. Não se trata de ódios nem de inimigos, mas de um debate de ideias sobre a Bíblia, Deus, a Igreja, a história – penso eu. E um bom debate vale sempre a pena.

Saramago e o conflito de interpretações

Saramago é um resistente. Consegue estar em muitos lados. Hoje está no DN. E diz:

"Desde há muitos anos que eu venho dizendo que a Bíblia tem umas quantas histórias mal contadas. Uma é a do David, supostamente o herói David, que matou o gigante Golias porque tinha uma "pistola", que era aquela funda, que se lhe parecia muito. Se Golias se aproximasse dele, provavelmente fazia-o em pedaços, mas David dispara-lhe uma pedra que atinge Golias na testa, este cai desmaiado e David aproxima-se e corta-lhe a cabeça. Onde é que está o acto heróico? Não há". Ler entrevista aqui.

E o Jonas na barriga do peixe? E o Tobias? E Babel? E Daniel na cova dos leões? E os magos? E os cavaleiros do Apocalipse? Há pelo menos 365 histórias mal contadas (a julgar pelo livro infantil que ali tenho e que apresenta uma para cada dia do ano).

Vale a pena ler as entrevistas de Saramago, até para perceber como o que dizemos (e aqui ponho-me do lado a Igreja, a que pertenço e gosto de pertencer, mesmo com críticas - a conversa é eterna) pode ser mal entendido por quem nos ouve. Pelos vistos, as histórias bíblicas, segundo Saramago, não têm qualquer encanto. Estão mal explicadas. Se fosse ele a escrevê-las, ganhavam logo enlevo. As iniciais em maiúsculas, dos nomes próprios, desapareciam, fazendo lembrar a antiga URSS. “Deus” escrevia-se com minúscula e “Komitet Gosudarstveno Bezopasnosti” com três maiúsculas. Punha pelo meio “arame farpado”, “porta-aviões” e “pessoal de limpeza”, como faz em “Caim”, e a Bíblia tornava-se um best-seller.

As interpretações de Saramago fazem-me lembrar uma discussão que tive quando estudava jornalismo em Lisboa. Falava-se de Bíblia, creio que a propósito de Ecologia. A certa altura, disse que na cultura bíblica do Antigo Testamento, não só os judeus como também os escravos e até os animais e os campos tinham direito ao descanso (os campos de sete em sete anos e os outros de sete em sete dias). O que disse, e que para mim era um sinal de avanço social da cultura bíblica em comparação com as outras circundantes, soou aos ouvidos dos colegas, entretanto juntados à conversa, como: “Mas a Bíblia defende a escravatura?” E dali já não consegui sair. A Bíblia defendia a escravatura e não havia nada a fazer. Não adiantou invocar a acção de Jesus e de Paulo (tratar como irmão o escravo Onésimo), a “revolução” do baptismo dado aos escravos, o “não há livre nem servo”…

Até cometi a imprudência, dando dois ou três exemplos, de falar da condição feminina na Bíblia… E o que para mim era génese da libertação da condição da mulher (que, segundo a Bíblia, tinha sido criada a partir do homem e não a partir de um material secundário como noutros mitos; que eram discípulas de Jesus – outros profetas não as admitiam –, que recebiam o baptismo…), passou a ser sinal do retrocesso da Bíblia e da Igreja. Mas a fé (a Bíblia, a Igreja, Deus, o ser humano, o sentido) é uma conversa eterna e não perdi a vontade de conversar. Nem de escrever.

25 de Outubro de 625. Morre Bonifácio V

Bonifácio V, segundo mattkirkland.com

Bonifácio V foi papa de 619 a 625. Morreu num dia 25 de Outubro.

Viveu numa época de grande instabilidade em Roma, devido às lutas pelo poder civil. Este papa é descrito no “Liber Pontificalis” como “o mais suave dos homens”. Nos seus escritos (que desapareceram mas são referidos na Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum, de São Beda) manifestava uma grande atenção ao cristianismo na Inglaterra.

Mas o que contribuiu para ser “o mais suave dos homens” foi o impulso que deu aos “direitos do santuário”. Quem se refugiasse num templo cristão não podia ser preso.

sábado, 24 de outubro de 2009

Bíblia e Saramago na imprensa deste sábado

Uma polémica à volta de Bíblia tem pelo menos a vantagem de colocar a Bíblia no centro. A imprensa deste sábado está cheia de artigos sobre Saramago e o que disse da Bíblia.

Aponto o que saiu em três jornais de referência (receando não ser exaustivo).

No DN, além do artigo de Anselmo Borges, já referido, Pedro Correia, no texto “Escrever direito por linhas tortas”, citando mal as passagens bíblicas, mostra como a nossa linguagem está cheia de expressões bíblicas, desde “meter a foice em seara alheia” (diz que está em Dt 23-26, mas deve ser Dt 23,26) a “Deus escreve direito por linhas tortas” (Gn 50,14, diz, mas não corresponde). Está no DN/gente em papel (se está on-line, não consigo encontrar).

Também no DN, Eurico de Barros desabafa que é difícil ser ateu em Portugal. Queixa-se das “investidas do Portugal pimbo-político-religioso, cujas pulsões talibanescas da vertente cristã se manifestam tanto no grunho apoplético que telefona em directo para uma televisão a dizer que Saramago vai «arder no Inferno», como no eurodeputado beatão e intolerante que quer que o escritor fique apátrida porque não partilha as suas convicções religiosas”.

No Expresso, há o debate entre Tolentino e Saramago (com este a invocar as fogueiras da Inquisição e Tolentino a dizer: “Não vamos falar das fogueiras, porque infelizmente o fuma das fogueiras enche a história de todos os tempos. Estamos aqui, dois homens, a falar no século XXI. Aqueles que pensam que são isentos do mal é que me metem medo!”). Devem ter dito mais do que as três colunas que o jornal publica no caderno principal. Infelizmente, os textos grandes assustam no jornalismo português. Falaram duas horas. Há um vídeo de 12 minutos no sítio do Expresso (aqui).

No Expresso, há também as crónicas de Miguel Sousa Tavares e de Daniel Oliveira. Mas ainda não as li.

No Público, há excertos bíblicos sobre crueldade e beleza (aqui).

Um texto de Tolentino Mendonça sobre “Bíblia, violência e alteridade” (aqui).

E outro de António Marujo sobre a relação dos artistas com o texto bíblico, que "chega a ser atormentada". “Breve viagem por incursões recentes de poetas e pintores no texto bíblico” (aqui).

A supernova de Tycho Brahe

O que resta da supernova de Tycho, segundo a NASA (aqui)

Há dias apontei neste blogue o visionamento por parte de Galileu e Kepler de uma super nova, em 1604 (aqui). Também Tycho Brahe viu uma, em 1572, na constelação de Cassiopeia, e ficou estupefacto com a “nova estrela”, que contradizia a imutabilidade dos céus. Esse facto terá sido determinante para seguir a carreira da astronomia. Em 1573, publica a obre “De nova stella” e é daí que vem o termo “nova” aplicado a este fenómeno. Há quem defenda que a "estrela que arde" referida pelo guarda Bernardo no início de "Hamlet" é esta supernova. A peça de Shakespeare, terminada em 1601, passa-se... na Dinamarca.

O livro onde Tycho Brahe descreveu a "nova estrela"

Anselmo, Caim, Saramago e Bloch

Ernst Bloch

Anselmo Borges, no artigo do DN de hoje, também fala de “Caim e Saramago”. Do gosto que teve em ler o livro. E das afirmações de "ignorância arrogante" do Nobel (texto aqui).

Realço o que diz de Ernst Bloch, “um dos grandes filósofos do séc. XX”, “também ele ateu e marxista, mas conhecedor da Bíblia”.

«Professor na Universidade de Leipzig, na então República Democrática Alemã, teve problemas com o regime comunista, vindo assim para Tubinga, precisamente porque chamava a atenção para a importância da Bíblia. Sem a Bíblia, “o livro mais significativo da literatura mundial”, não podemos compreender as catedrais, a Idade Média, Dante, Rembrandt, Händel, Bach. Sim, que se entende então verdadeiramente? Sem ela, não se entende a cultura alemã, a Missa solemnis de Beethoven, nenhum Requiem, nada.

Para Bloch, há um duplo fio condutor na Bíblia: o sacerdotal, em que domina o deus opressor, dos senhores, e o profético-messiânico-apocalíptico, que anuncia o Reino de Deus, a herdar meta-religiosamente como Reino do Homem: “Esta vida no horizonte do futuro veio ao mundo pela Bíblia”».

24 de Outubro de 1601. Morre o astrónomo dinamarquês Tycho Brahe


Tycho Brahe morreu no dia 24 de Outubro de 1601, em Praga, para onde se mudara depois de uma zanga com o soberano dinamarquês. Nascera no dia 14 de Dezembro de 1546. Foi o último grande astrónomo observacional, isto é, sem usar o telescópio.

Tycho Brahe não aceitava o heliocentrismo de Copérnico. Propunha antes um sistema híbrido – Ticónico –, em que os planetas andam à volta do Sol e este anda à volta da Terra. Durante muitos anos recolheu dados e mais dados do céu. Em 1600, um ano antes de morrer, contratou o matemático e astrónomo alemão Johannes Kepler, que então tinha 29 anos (e tivera de deixar um trabalho numa escola de Graz, Áustria, por ser protestante – por influência dos jesuítas!). Foi a sorte grande de Kepler, que com os dados do astrónomo dinamarquês pode elaborar as suas leis.

Segundo a história (e o próprio Kepler), Tycho Brahe morreu devido a um problema na bexiga. Estava num banquete e, por uma questão de educação, não quis ausentar-se para ir à casa de banho. Mas hoje corre a hipótese de que terá sido envenenado por Kepler, que queria ficar com os dados. É o que dizem Joshua Gilder e Anne-Lee Gilder em “Heavenly Intrigue: Johannes Kepler, Tycho Brahe, and the Murder Behind One of History's Greatest Scientific Discoveries”, de 2005. Espero aqui hoje deixar um ponto em defesa de Kepler. Ver aqui.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Frescura inalterável

Nenhum ser humano se afasta tanto de ti
que não possa encontrar-te de novo...
Quando alguém vem a ti,
não importa a idade, o dia
nem a sua condição humana.
Se vier com o espírito sincero,
descobriá o teu Amor
como uma fonte de frescura inalterável.

Soren Kierkegaard (1813-1855)

"Galileu e Saramago", por Carlos Fiolhais

Carlos Fiolhais faz hoje no Público uma comparação curiosa, por oposição, entre Saramago e Galileu. Em algumas passagens toca em assuntos permanentes deste blogue.

Galileu, diz, "profundamente crente" e "bem relacionado com a hierarquia da Igreja", soube resolver a divergência entre Bíblia e Ciência. Já o escritor "falou sobre a Bíblia de uma maneira que, seja-se ou não crente, não é intelectualmente séria".

"Francamente, não consigo distinguir entre a teologia básica dos que condenaram Galileu e este antiteologia igualmente primitiva de um escritor contemporâneo", conclui Fiolhais.

O texto pode ser lido na imagem (basta clicar) ou no Rerum Natura.

Início do conto “Adão e Eva no Paraíso”, de Eça de Queirós

Margaret Preston, “Adão e Eva no Jardim do Éden”

“Adão, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, às duas horas da tarde... Assim o afirma, com majestade, nos seus Annales Veteris et Novi Testamenti, o muito douto e muito ilustre Usserius, bispo de Meath, arcebispo de Armagh e chanceler-mor da Sé de S. Patrício. A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manhã de todas as manhãs”.

Eça de Queirós

No princípio, foi assim

Segundo James Ussher, Adão e Eva foram criados no dia 28 de Outubro, uma sexta-feira, antes do descanso de sábado.

Adão e Eva foram expulsos do paraíso no dia 10 de Novembro de 4004 a.C., numa segunda, que é o dia adequado para despejos.

A Arca de Noé volta a tocar em terra seca no dia 5 de Maio de 2348, uma quarta-feira.

A obra principal de James Ussher é “ Annales veteris testamenti, a prima mundi origine deducti”, de 1650 (edição em latim, posterior à original aqui). Nela podemos ler que o chamamento de Abraão foi no ano 1921 a.C., o Êxodo no ano 1491 a.C., a fundação do templo de Jerusalém no ano 1012 a.C., a destruição de Jerusalém pelo Babilónios em 586 a.C. Com esta última data os estudos bíblicos recentes concordam.

O interesse da obra de Ussher não está hoje na datação de episódios que obviamente não são históricos, pelo menos alguns deles (os relativos aos primeiros 11 capítulos do Génesis são os mais flagrantes), mas na concatenação de toda a história bíblica. A ideia da história, do tempo que não volta atrás, mesmo que os erros se repitam, é tipicamente cristã.

23 de Outubro de 4004 a.C. Primeiro dia do mundo, segundo James Ussher

James Ussher (Dublin, 1581-1656), arcebispo de Armagh (de confissão anglicana), na Irlanda do Norte, estudou a Bíblia ao pé da letra e elaborou uma cronologia que estabelece que o mundo começou no dia 23 de Outubro de 4004 a.C., às 9 de manhã. Era domingo. Faz hoje 6013 anos.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Não vás à frente nem atrás, pede Camus

Não vás à minha frente,
que não te posso acompanhar.
Não vás atrás de mim,
que não me poderás guiar.
Caminha apenas junto de mim
para, simplesmente, seres meu amigo.

Albert Camus, escritor francês (1913-1960)

Caim e Abel por Daniel Mendelsohn

No admirável “Os desaparecidos. À procura de seis em seis milhões”, de Daniel Mendelsohn (que cita Saramago no início da parte quatro, na página 291), fala-se de Caim e Abel, nas páginas 103-104:

Composto pelos primeiros dezasseis versículos do capítulo 4 do Génesis, o conto já é familiar: como Adão conheceu Eva, que engravidou e deu à luz Caim, um acontecimento que a fez vangloriar-se: «Criei um homem com YHWH» [nota do tradutor: “Gerei um homem com o auxílio do Senhor”, Nova Bíblia dos Capuchinhos]; como depois ela deu à luz o irmão mais novo, Abel. Como, curiosamente, foi ao irmão mais novo a quem competiu a tarefa mais agradável de pastar os rebanhos, enquanto o mais velho labutava arando o solo, e como quando os irmãos fizeram as suas oferendas a Deus, os frutos da terra e o primogénito do rebanho, Deus reconheceu a oferenda do mais novo mas não a oferenda do mais velho e como isto o transformou profundamente, «de rosto abatido»”. Como Deus admoestou Caim, avisando-o de que o pecado «deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te», que ele devia «dominá-lo»; e como Caim, no fim, não dominou o seu impulso pecador e em vez disso chamou o seu irmão ao campo e aí o matou. Como Deus omnisciente quis saber de Caim onde estava o seu irmão, pergunta à qual Caim deu a famosa resposta, repleta do descaramento mal-humorado que os pais de crianças culpadas tão bem conhecem: «Sou, porventura, guarda do meu irmão?» Como Deus exclama então que «o sangue de Abel clama da terra e lança a Caim a maldição de ser um vagabundo a percorrer a terra. Depois, a angústia de Caim, a expulsão, a marca sobre a sua sobrancelha.

Apesar da sua dureza arcaica, é uma história que, para quem que tenha família – pais ou irmãos, ou ambos; o que é o mesmo que dizer, para toda a gente – é assustadoramente familiar. O jovem casal, a chegada do primeiro filho; a chegada, trazendo emoções mais complexas e comprometedoras, do primeiro irmão; as sementes de uma competição obscura; a desaprovação paterna, a vergonha, as mentiras, os dolos. A violência no memento de… quê?

A partida que é tanto uma fuga como um exílio.

Daniel Mendelsohn, “Os Desaparecidos. À procura de seis em sei milhões”, Ed. D. Quixote, págs. 103-104

22 de Outubro de 1844. Dia do Grande Desapontamento

William Miller (Massachusetts, 1782-1849) e um grupo de cristãos baptistas norte-americanos esperavam a segunda vinda de Cristo no dia 22 de Outubro de 1844. Inicialmente pensavam que tal aconteceria entre a Primavera de 1843 e a de 1844. Depois de mais estudos, apontaram o dia 22 de Outubro de 1844. Esperaram até à meia-noite, mas nada aconteceu. Veio então a grande decepção. A grande desilusão. O dia ficou conhecido por “Dia do Grande Desapontamento”.

William Miller voltou para a sua comunidade baptista, mas outros líderes prosseguiram na convicção de que o fim estava próximo e formaram a Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Na base do cálculo do suposto dia da segunda vinda de Cristo esteve uma passagem de Daniel:

“Vi um santo que falava, a quem um outro santo perguntou: «Quanto tempo durará o que anuncia a visão, a propósito do holocausto perpétuo, da abominação devastadora, do abandono do santuário e do exército dos fiéis calcado aos pés?» Aquele respondeu: «Duas mil e trezentas tardes e manhãs. Depois disso, o santuário será restaurado»”.

Não sei como esse conjunto de 1150 dias foi dar a 22 de Outubro de 1844. Os intérpretes conjugaram tal passagem com Êxodo 25,9 e Hebreus 8,1 e 9,24…

Mais tarde, os que vieram a tornar-se Adventistas do Sétimo Dia chegaram à conclusão de que a data estava certa. O dia era especial não na terra mas no céu, onde começara um “juízo investigativo”, uma investigação dos pecados de cada um. Segundo estes milenaristas, o fim continua próximo.

Saramago e o argumento da Inquisição

Quando Saramago ouve uma crítica, puxa logo pelas fogueiras da Inquisição. Diz que se “ardessem fogueiras em S. Domingos” talvez não tivesse escrito “Caim” (aqui; na imagem, um auto de fé, não em S. Domingos, mas no Terreiro do Paço).

Naturalmente, cada um pode falar do que quiser. E tanto o escritor pode falar de Deus e da Bíblia, como os outros podem criticar o que ele diz sobre Deus, a Bíblia ou o que quer que seja. E pode invocar a Inquisição. É assim a liberdade de expressão, que é também uma liberdade de dizer asneiras. E de esperar que haja quem se manifeste quando as ouve. De parte a parte.

Julgo que até agora só criticaram o que Saramago disse e não o facto de o dizer, que, esse sim, enquanto direito, é sagrado. E para criticar o que ele diz não é preciso ler o livro, ao contrário do que ontem afirmou em conferência de imprensa. Para criticar um livro, sim. E nem sempre. Mas poucos têm criticado o livro. Muitos mais o que ele diz, que é o que está em questão.

Mas eu sugeria um pacto, retomando uma ideia de Rui Tavares, nas páginas do Público, por alturas do referendo ao aborto. Dizia o colunista que, numa discussão sobre o aborto, o primeiro a invocar o nazismo perde (abstraiamo-nos do facto de, normalmente, serem apenas os que defendem a vida humana desde a concepção que invocam o triste argumento do nazismo, pelo que o pacto é tendencialmente anti-anti-aborto).

Proponho o pacto: numa discussão sobre Deus, religião, Bíblia, liberdade religiosa, de expressão e afins, o primeiro que invoca a Inquisição perde. Este pacto é mais igualitário, porque a ambos os lados da discussão pode dar jeito invocar a Inquisição. Não quer dizer que não se possa falar da Inquisição, claro que sim. Se o tema é Inquisição, fale-se de Inquisição. Mas se a discussão é outra, apelar à Inquisição é apelar à irracionalidade e à provocação gratuita. É um argumento de desespero.

Por que nos deixas na dúvida?

Senhor, por que é que nos deixas na dúvida,
numa dúvida mortal?
Por que é que te escondes?
Por que é que acendeste nos nosso coração
o desejo de te conhecer,
o desejo de que existas...?
Por que é que fizeste a vida?
Que significa tudo isto,
que sentido têm os seres?

Miguel de Unamuno,
escritor e filósofo espanhol (1864-1936)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Exposição e livro de M.S. Lourenço

Livro. No dia 28 de Outubro, às 18h30, na sala 5.2 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, será lançada a obra "O Caminho dos Pisões", de M. S. Lourenço. Participam no evento Fernando Martinho, Miguel Tamen e João Dionísio.

Exposição. Até 31 de Outubro, pode ser vista na Biblioteca Nacional de Portugal a exposição “O Sopro sopra onde quer” (Sala de Referência, 2.ª a 6.ª, das 09h30-19h30 e sábado, da 09h30-17h30). Trata-se de uma mostra bibliográfica sobre o sobre o poeta, pensador e filósofo M.S. Lourenço (1936-2009).

“O Sopro sopra onde quer” é um belo título. É outra tradução possível da frase bíblica “o vento sopra onde quer” (Jo 3,8) e que durante muito tempo foi mais conhecida por “o Espírito sopra onde quer”. O Evangelho de João foi escrito em grego, portanto deve lá estar “pneuma”, mas em hebraico (a língua em que Jesus lia a Bíblia) e suponho que em aramaico (a língua que Jesus falava) seria “ruah”, que habitualmente é traduzido por “pneuma”. “Vento”, “sopro” e “espírito”, e até “garganta”, que é o sítio por onde passa o sopro, são ditos pela mesma palavra: “ruah”.

Mais informação sobre a exposição aqui.

Os dois maiores erros da história de Portugal

António Rendas, reitor da Universidade Nova (de partida) e durante dez anos reitor dos reitores portugueses, diz que "expulsar os judeu...